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sexta-feira, dezembro 17, 2010

Entrevista com a Profa. Msc. Natália Barros

Profa. Msc. Natália Barros
Natália Barros é graduada  e Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Pernambuco. Ela divide seu tempo entre a pesquisa de doutorado sobre Historiografia das Artes Plásticas em Pernambuco e o trabalho na Coordenação de Capacitação e Difusão Científico-Cultural (CADIF), da Fundação Joaquim Nabuco. De passagem por Aracaju por conta da realização do Curso "Cultura Contemporânea: Uma Introdução", ela veio conhecer o PET História UFS, a convite do Prof. Dilton Maynard. Aproveitando a presença dela, realizamos uma entrevista com o intuito de conhecer a Fundação e suas propostas e ações em todo Brasil, inclusive em Aracaju.

PET: O que é a Fundação Joaquim Nabuco?
Natália Barros: A Fundação foi concebida por Gilberto Freyre ainda nos anos 1940 e inicialmente era o Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais. A idéia do Freyre era uma instituição que pesquisasse o homem do Norte e Nordeste, principalmente o homem nordestino. É uma instituição que tinha esse papel de pensar o homem, sua relação com a terra e com o lugar. Só que nesses últimos 60 anos a Fundação Joaquim Nabuco foi se expandindo e ganhando outras dimensões, para além da pesquisa social e, hoje, a FUNDAJ tem uma Diretoria de Pesquisa, uma Diretoria de Documentação, uma Diretoria de Cultura e uma Diretoria de Planejamento. Toda a parte administrativa e de gerenciamento de recursos se concentra na DIPLAD (Diretoria de Planejamento). Atualmente a Fundação é uma instituição ligada ao Ministério da Educação. Isso é muito interessante e ao mesmo tempo problemático, porque ela tem essa parte de Documentação – o Museu do Homem do Nordeste, as Bibliotecas de referência, um acervo de documentos que servem para pesquisadores do mundo todo – mas tem a Diretoria de Pesquisas Sociais, que tem seus pesquisadores ligados ao Ministério de Ciência e Tecnologia. A carreira deles é diferente da dos professores universitários, por exemplo, que estão ligados ao Ministério da Educação. E há uma autonomia muito grande desses pesquisadores.

PET: Como funciona a Diretoria de Cultura?
N.B.: Para a maioria das pessoas, a Diretoria de Cultura deveria estar ligada ao MINC (Ministério da Cultura), mas, na verdade, os recursos vêm do MEC. Na Diretoria nós temos uma Coordenação que cuida da parte de editoração e outra que trabalha com toda a parte de produção de material audiovisual para as TVs educativas e editais de fomento para produtores independentes de vídeos através do Concurso Rucker Vieira. Temos também uma Coordenação de Artes Plásticas e três galerias, que possuem um edital chamado “Projeto Trajetórias” – para artistas emergentes – com premiações e uma programação de exposições anuais. Nós temos o espaço Cultural Mário Mota, que abriga o cinema que é referência e tem uma programação de filmes alternativos, os chamados “filmes de arte”. Há a Coordenação de Capacitação e Difusão Científico-Cultural, carinhosamente chamada CADIF.

PET: O que é a CADIF e quais seus objetivos?
N.B.: Essa Coordenação foi idealizada por Moacir dos Anjos, hoje curador da Bienal de Artes São Paulo, pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco há muitos anos. A CADIF possui duas coordenações: Estudos Culturais e Difusão Cultural. É uma coordenação estratégica, porque faz a ligação entre Ministério da Educação e Ministério da Cultura. O seu grande objetivo é formar pessoas, nos mais diversos níveis, na área de arte e cultura contemporânea. Nós somos uma Instituição Nacional, sediada em Recife, mas, mas últimas décadas, a Fundação não estava cumprindo esse papel de nacionalizar suas ações, permanecendo muito fechada nessa capital. Moacir assumiu a Coordenação geral até meados de 2008 e, por conta do seu Pós-Doutorado em Londres, eu fui convidada para assumir a Coordenação de Difusão Cultural. Atualmente, temos Cristiana Tejo na Coordenação Geral, eu sou a coordenadora de Difusão Cultural e Janeide Franca, que dá todo o suporte administrativo, é a Coordenadora de Estudos Culturais. Quando fomos convidadas para a Fundação, a grande missão era desenvolver ações de caráter e amplitude nacional. São três os pilares: o fomento, a formação e a difusão.

PET: Quais as atividades realizadas para atingir esses objetivos?
N.B.: Nós oferecemos seminários, cursos – avançados e introdutórios – e também o “Concurso Mário Pedrosa de Ensaios sobre Arte e Cultura Contemporânea”, sendo essa uma área de fomento à produção. Num primeiro momento, em 2008 e 2009, oferecemos um curso avançado em Recife com duração de seis meses. Os temas foram: História da Arte, História da Arte brasileira, Teorias do Contemporâneo e Arte e Tecnologia. São cursos que comportam apenas vinte alunos, nos quais o professor é uma espécie de tutor que anima um grupo de discussão. Não há a exigência de um nível de formação acadêmica para os participantes, mas apenas um alinhamento, isto é, que eles tenham esse potencial de pesquisador e multiplicador dos conteúdos discutidos ali. Ao final do curso os alunos têm o compromisso de entregar um texto para publicação, e aí vem a questão da difusão. Todos os seminários, os ensaios premiados no Curso Mário Pedrosa e os textos dos alunos e professores dos cursos avançados são publicados. Isso faz com que esse conhecimento circule e se difunda. Quando nós ofertamos as 60 vagas para os três cursos, tivemos quase 300 pessoas procurando por eles. O problema é que a maioria esmagadora dessas pessoas, apesar do interesse, não tinha o perfil para ser aluno do curso avançado. Para participar desses cursos os candidatos precisam mandar o currículo, uma carta de intenção e participam de uma entrevista, porque, já que é tudo gratuito, precisamos garantir a qualidade e o compromisso dos alunos. Foi aí que percebemos que havia uma demanda na cidade por cursos introdutórios. Diante disso, a gente resolveu montar um curso condensado, com duração de uma semana. Nessa época eu concebi o que chamei de “Cultura Contemporânea: Uma Introdução”, que é um curso de nível introdutório, abrangendo cinco módulos: Artes Plásticas, Cinema, Música, Dança e Literatura. São 16 horas cada um e as pessoas podem se inscrever tanto em um módulo só – que foi o que pensamos que iria acontecer – quanto em todos. Foi uma grande surpresa, pois a maior parte dos inscritos fez os cinco módulos, ou seja, acompanhou a formação completa. As pessoas entenderam mesmo o espírito do “Cultura Contemporânea: Uma Introdução”. Em 2009 nós tínhamos viajado por 12 cidades brasileiras divulgando o Concurso Mário Pedrosa de Ensaios. Pensando essa questão da formação, convidei quatro professores que já trabalhavam com a gente nos cursos para que fizessem palestras nessas cidades, com temáticas próximas ao que o Concurso estava abrangendo. Dessa forma, a divulgação estava atrelada a uma ação de formação. Ou seja, difundimos o Concurso, promovemos a formação e, de quebra, firmamos várias parcerias, o que possibilitou que o “Cultura Contemporânea” ocorresse em outras cidades. Já no primeiro semestre, no período em que ele nasceu, ocorreu em Natal e Teresina. Nesse segundo semestre ele está acontecendo em Aracaju e em Rio Branco. Temos um dado de que, só em Recife, este curso atingiu uma média de 1000 pessoas, por módulo. Esse ano se realizará, pela primeira vez, um curso condensado em Maceió e João Pessoa, sendo que, nessa última cidade, é um curso avançado ministrado pelo Professor Dilton Maynard. A idéia é realizar também seminários através do projeto “Pensando o Contemporâneo”, que convida profissionais de renome internacional. Conseguimos trazer, na primeira edição, Francisco Jarauta, que é hoje um dos filósofos mais respeitados da Europa, professor da Universidade de Lisboa e da Universidade de Berlim. Na segunda trouxemos a Anne Cauquelin, uma francesa que é referência mundial para quem quiser estudar e pesquisar o contemporâneo. A terceira edição do “Pensando o Contemporâneo” foi com o Renato Ortiz. Mas existem todas as limitações burocráticas, de modo que seria muito importante para nós uma parceria que pudesse pagar passagens internacionais, por exemplo. Este projeto, se consolidado em Recife, poderá ser levado para outras cidades. Há também a produção de seminários. Hoje, produzimos seminários interessantíssimos, que contam com a participação de vários pesquisadores e artistas de peso global.

PET: Quais as maiores dificuldades no seu trabalho?
N.B.: Uma grande dificuldade é firmar parcerias confiáveis e produtivas, pois a FUNDAJ gasta em média 30 mil com cada curso. Não é interessante levá-lo para outra cidade e ter um público escasso. As parcerias são fundamentais para a difusão das nossas ações, já que muitas vezes deparamos com a limitação física. Assim, o papel da instituição parceira é essencial para a divulgação, para o recebimento das inscrições, para a recepção à equipe e ao professor. Outro problema é que somos uma equipe de apenas sete pessoas, sendo que somente três são efetivamente da Fundação Joaquim Nabuco. Isso demonstra a fragilidade das Instituições públicas no nosso País e o perigo que é a falta de continuidade. Apesar disso, eu considero que a CADIF está consolidada no quesito formação e de nacionalização de suas ações. O nosso ponto frágil são as publicações e o material audiovisual. Quanto às publicações, o problema reside no fato de que a Fundação não tem uma gráfica própria, nos deixando sempre à mercê de licitações. É necessário um concurso público para equipar a nossa editora. Já o material audiovisual para ser vinculado nas TVs educativas deveria ser gerado pelo projeto “Pensando Contemporâneo”. Mas só em uma edição fizemos tomadas de filmagem e precisamos pedir aos alunos de cinema e aos estagiários para trabalhar na produção, porque não tinha equipe. Conseguimos atingir o público presencialmente, não só em Recife, como nas outras capitais. Mas se tivéssemos o programa de televisão, os DVDs e os livros, haveria uma circulação e um nível de difusão infinitamente maior. Precisaríamos também de um editor para tornar o texto que os alunos entregam após o curso avançado mais acessível ao grande público. Mas, infelizmente, o que fazemos é formatar o material e mandar para a editora em no máximo 24 horas, para não perdemos a licitação. Essa parte da difusão em termos do produto é o grande calcanhar de Aquiles, que, para mim, seria resolvido se tivéssemos uma equipe maior.


PET: Como estão as ações da FUNDAJ em Aracaju?
N.B.: Nós queríamos promover um curso numa outra capital do Nordeste, pois todas as capitais nordestinas, com exceção de Aracaju e São Luís, já haviam sido contempladas com alguma ação da Fundação. Como Cristiana Tejo já havia sido procurada pela Sociedade Semear para dar uma palestra sobre Arte Contemporânea aqui em Aracaju e eu já havia conversado com o professor Dilton Maynard sobre uma parceria com a UFS, percebendo a ausência de discussões sobre esse tema, decidimos realizar alguma ação aqui. Estamos efetuando agora uma primeira tentativa de parceria com a Sociedade Semear, que tinha interesse por nossos projetos, espaço e boa localização. O curso “Cultura Contemporânea: Uma Introdução” vai acontecer nesses meses de Novembro e Dezembro de forma muita corrida. A idéia era que ele tivesse acontecido ao longo desse segundo semestre, porém não foi possível, por uma questão de agenda nossa e dos professores. Mas é a primeira tentativa de “marcar território” nesta capital e pensar ações para o ano que vem. 

PET: Como você chegou á Fundação?
N.B.: Na verdade, minha história com a Fundação começou em 2003, quando eu fiz uma seleção para estagiário como Monitora de Arte Contemporânea. Na época Cristiana Tejo era a Coordenadora de Artes Plásticas e era responsável por essa seleção. Quando fui entrevistada por ela, falei que cursava História e que não entendia nada de Arte Contemporânea. Na ocasião eu já lia Walter Benjamin e adorava História da Arte, mas meu conhecimento sobre o tema era só dos livros. Mesmo assim ela me contratou. Éramos dez estagiários e só eu de História. Além de trabalhar nas galerias, tínhamos um grupo de estudos no qual nos reuníamos com Cristiana todas as segundas-feiras à noite para discutir temas e pesquisar e, a cada exposição, fazíamos um diálogo com a História da Arte. Existia essa vida paralela e esse ambiente que proporcionava uma dupla formação em Arte e em História. Ao mesmo tempo, eu participava de um grupo que estudava Gênero e História das Mulheres. Eu fiquei dois anos como estagiária na Fundação, saindo por conta da aprovação do meu projeto de Mestrado. Quando eu terminei o mestrado, em 2007, Cristiana me convidou para coordenar um grupo de pesquisa de Requalificação do Acervo do Museu. Era um trabalho penoso e voluntário. Eu consegui cinco ou seis pessoas, mas o grupo era irregular e terminou se dispersando. Ao final de 2007, Moacir dos Anjos, que estava voltando para a FUNDAJ, conversou comigo. Naquele tempo, eu sentia que já estava sendo repetitiva na minha pesquisa sobre as mulheres e queria contribuir para as pesquisas e estudos no campo da Arte Contemporânea. Então eu mudei a tese de doutorado. O que me interessa agora é a Historiografia do Modernismo em Pernambuco, isto é, a construção dessa memória da História da Arte moderna no estado. Para discutir isso eu estou focando nos escritos de Joaquim Inojosa, que foi o grande difusor do Modernismo no Norte e Nordeste. Eu levei dois anos para redefinir o tema da minha tese. Em 2008 e 2009 eu ainda dava aulas no Colégio de Aplicação, pois me interesso muito pelo ensino de História. Esse ano é que eu fiquei só na Fundação Joaquim Nabuco, mas ano que vem eu volto para o Colégio novamente e ainda não sei se vou continuar na FUNDAJ.


PET: Em sua opinião, como está a Arte Contemporânea no Nordeste?
N.B.: Penso que ainda há muito que fazer, a começar pelas Universidades, que precisam estimular as visitas às exposições e a produção. Por exemplo, na UFPE, existem uma ou duas disciplinas que abordam a Arte Contemporânea, mas ainda há muitas oficinas de gravura e de pintura, não tendo espaços de experimentação como um laboratório que aborde Arte e Tecnologia, por exemplo. A Arte Contemporânea é esse espaço da liberdade de trabalhar com diferentes materiais, de entender o artista como um pesquisador, dissolvendo a “aura” do artista gênio. Também é o lugar de quebra de fronteiras e de questionamentos. Mas os alunos não são formados para produzir e para aprender a olhar e criticar esse tipo de arte. Os próprios alunos do curso vão pouquíssimas vezes aos museus, ateliês e galerias, restando só aquela coisa teórica e uma História que pára nos Modernos ou em Pablo Picasso. Isso é um problema de base educacional. Existem galerias que estão se especializando em Arte Contemporânea e museus que se abrem para essa produção. Mas ainda é tudo muito incipiente, os espaços de exposição ainda são pouquíssimos se comparados com a quantidade de galerias no Sul e Sudeste. Eu acho que, na verdade, a cultura do nosso País não é levada a sério e a questão da arte regional, chamada arte popular, experimenta uma disputa de identidades. É o artista que trabalha com o barro, o artista popular, que entra em confronto com o jovem que trabalha de uma forma mais contemporânea, como um quadro com um risco ou uma fotografia. As pessoas questionam se isso é arte, mas não conhecem a História da Arte e visitam a galeria de Arte Contemporânea com um olhar que procura pela arte moderna. Então é preciso formação, mas não só formação teórica. É preciso formar o olhar, saber ler as imagens, conhecer muito de estética, conviver com os artistas, com os ateliês e museus. Então, ainda há muito que fazer, mas houve crescimento se olharmos dos anos 1990 para cá.


Acesse aqui o currículo Lattes da Profa. Natália Barros.
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